
Pessoal, vou colocar aqui um texto-exercício do mês passado, que fiz para a "Oficina de escrita criativa" com a Marcia Tiburi. Tinhamos que criar um personagem, descreve-lo em detalhes e depois matá-lo sem piedade. Tudo isso em apenas 2000 toques! Vejam se gostam...;-) Bjs
EXERCÍCIO 02
POR : DEBORAH MALHEIROS DE MELLO
Surgiu de súbito, esboçando um largo sorriso naquela manhã enevoada. Embaixo do braço alguns tubos e papéis enrolados, muitos lápis cuidadosamente apontados, todos amparados por mãos fortes de veias bem definidas que desenhavam sob a pele uma espécie de mapa. Talvez o raro e especial mapa da cara metade.
Arquiteto, beirando a casa dos quarenta. Linhas finas e traços fortes demarcavam-lhe o rosto, ar de homem com sopro de menino. Alto, abraço de dois metros, olhos embrasados, brilhantes cor de amêndoa, granada-esfumaçados, fartos cabelos castanhos, sempre despenteados e na boca um arco de cúpido de refinado desenho. Completando esse encanto, mistura de amuleto, sorte e coragem possuía ainda três pintas no pescoço que lhe garantiam o charme. Charme tão grande que não conseguiria descrever em apenas dois mil toques.
Fomos para casa e como tinha pressa em trocar-me, deixei-o na sala, entre sofá e livros. Se não fosse a pressa o teria levado comigo ao quarto; Pois quando voltei, ele estava morto. Estava ali, ou melhor, não estava mais. Tudo parecia desfocado, custei a entender aquela cena. Foi morto sadicamente, teve o rosto desfigurado e os membros totalmente mutilados, não sobrara nada... O assassino poderia ter sido menos cruel e apenas apertado um gatilho, mas não. Resolveu riscar-lhe o rosto por completo e cortar-lhe o corpo. Não usou estilete, navalha, faca, facão ou serrote como poderíamos supor; Usou um singelo objeto, que ainda estava no local do crime, e apagou-o de vez da minha vida. Foi morto sem pressa, a macios golpes de borracha, isso mesmo, a borrachadas! Dessas verdinhas sem graça que se usa na escola. Esfregaram-lhe o rosto e o resto do corpo com tanta força que nada sobrou, a não ser um monte de farelos de borracha e grafite que ficaram espalhados pelo chão da sala. Para mim, entre lágrimas, carne e sentidos moídos de um herói.
E o assassino? Ah, esse idiota! Acredita que ainda deixou um bilhete que dizia assim:
“Antes de sair apague a luz!
p.s: Como não tinha papel sobrando, então usei esse mesmo.
Beijos, Mamãe ”.
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