O TEMPO
dmalheiros @ 19:01
Pessoal, mais um conto!
Acabei de escrevê-lo e quis compartilha-lo com vocês!!!
Este leva à reflexão, leva a pensar na vida, nas metáforas da vida. Onde anda a humanidade? Onde está o humano? Será que sentido, gestos e sentimentos não passam de coisas inúteis que guardamos como quinquilharias no fundo de uma gaveta? Que a vida anda corrida, que os afazeres se multiplicam isso é constatação. Mas não consigo entender situações onde até um pedaço de pizza é capaz de mais sentimento e generosidade que muita gente. Mas continuo acreditando na humanidade, se é ilusão, não sei. Mas acredito. Assim como acredito em fantasmas!... :-)
“ O TEMPO ”
Na parede daquela casa agitada, o velho relógio afastou um pouco mais seus enormes ponteiros e arriscou uma olhada para a família reunida na sala. Falavam alto, num palavreado esquisito, onde ele não entendia muito bem, enquanto uma música infernal enchia o ambiente. Suspirou cansado, sentia-se inútil, ninguém precisava dele ali. Traziam nos pulsos uns minúsculos reloginhos, esquisitos e sem graça; feios e fracos. Ele era forte, bonito, fora construído na Suíça, peças de aço puro, tinha inúmeros rubis e feito de envelhecido carvalho. Chegara há muitos e muitos anos, vistoso, imponente, ocupava o canto principal da sala de visitas. Todos o olhavam constantemente, tinha números límpidos, ponteiros brilhantes, pendulo de bronze. Quando balançava para dar as horas, as crianças de casa ( hoje todos muito velhos ) corriam, e de nariz pra cima e olhos arregalados iam pra lá e pra cá, acompanhando-o entusiasmadas.
Ia recolher-se, cansado com aquele modo de viver alucinado da família, quando viu a jovenzinha de cabelos encaracolados e olhos brilhantes ( safra da nova geração) levantar-se. A esperança encheu-o por dentro: - Será que aqueles lindos olhos iriam mira-lo para ver as horas? Decepção!. Olhou apressada o grotesco relógio de plástico no pulso delicado e saiu sem notá-lo. Recolheu-se desiludido para dentro de seu maquinismo. Os bons tempos já se foram, tempos de música suave, de vida calma, tranqüila, sem pressa . Ninguém mais ligava para ele, a não ser a empregada para limpa-lo. Triste, pensou em parar, não queria mais dar as horas. Suspirou sufocado. Sufocado! Ele fazia tudo para não chamar a atenção; por anos e anos, marcava as horas exatas, soava sempre no mesmo tom, não atrasava, não adiantava. “ Talvez se...”- riu baixinho com a extravagante idéia que ocorrera em suas cordas. Talvez se descontrolasse, como um velho caduco, caduco como o velho Belmiro, o avô há vinte e tantos anos falecido...- riu, divertindo-se, arriscando mais vez uma olhada para a família que ainda discutiam ao redor da mesa. Jogou o pêndulo com força. Este, assustado, foi para lá e para cá, descontrolado, encheu a sala com um barulho estridente.
Fez-se silêncio repentino. A família assustada o olhou: - O que teria acontecido ao velho e superado relógio? Nada, certamente, com ele nunca acontecia nada. Voltaram a conversar, indiferente à angústia do velho relógio. Velho, objeto, coisa, mas sentimental.
Raivoso com aquela indiferença, deixou cair os ponteiros com força e tornou a jogar o pêndulo, que ressoou estridente.
A família, agora alarmada, levantou e o rodearam com mil conjecturas. Por fim depois de tanto falatório, dizendo horrores a seu respeito e deixando-o tonto, tiraram –lhe o pêndulo e decretaram: - Será vendido!.
No outro dia foi jogado num depósito junto com móveis velhos e depois de algumas semanas, levado a algum antiquário. Amargurado, e sem se importar com os colegas ali enfileirados, enroscou-se, emperrou todas as suas peças. Não mais funcionaria, negava-se a viver depois de tanta ingratidão. Deixou cair uma lágrima que correu entre os números amarelando um pouco mais o mostrador. Ninguém notou, a não ser os colegas que como ele, também tiveram o mesmo fim.
FIM
( DEBORAH )
Metáforas da vida. ( de todos );-)
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Do Melhor
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del.icio.us
Comentários(17) »
Este conto constata o defeito de nosso tempo(ocidental!!?): a contradição.
Como as pessoas tem tanta pressa e ao memo tempo não vê a velhice com bons olhos? Poderia ser somente um simples exemplo, mas infelizmente, a contradição, neste conto, apontada, se refere ao Tempo, o núcleo emperrado de todas as angústias humanas. Basta saber porque a maioria opta por objetinhos cada vez menores e mais(?) eficientes; alusão à infância, quando se quer ter o domínio do mundo em um anel, distribuido em doces, comprados nas quitandas de cada rua.
Vítimas do mercado midiático ocidental, ou escolha própria, que devemos respeitar? Lembrando que aplausos nem sempre significa respeito por um bom trabalho.
Aquele abraço
deborah, texto sensível,bem escrito, boa a comparação do humano-frio, e da coisa-sentimento. Tão bonito que é ruim lembrarmos q um dia podemos ser decretados lixos. òtimo!!!!
Bjs!
Miga, me emocionei!!!!
Tocou fundo, 10!!!!!!!!!!!!!!!!!
Dé, o texto é maravilhoso, tb me emocionei, gostei tb do trecho da "pizza", quase cai da cadeira,kkkkkk,só tu, só tu! Não esqueceu,né?kkkkkkkk ótimo
Debra, nota Mil!!! A cada dia viro mais fã. T adoro
Bjs do Ral
Dé, ingratidão, desvalor, desmerecimento, é bem coisa do humano. Ainda bem que temos exceções, gracias!!!!
Bjks
( e aí, já usou a caneta nova??)
Sel
Deborah,por que corremos tanto se nunca damos conta de chegar lá? Pq se chegássemos, não precisaria mais correr, num acha? E a cada dia a corrida fica maior, a maratona não acaba. Acho q surte um efeito reverso, qt mais corre mais longe, por isso ando pensando em correr muito pouco, vou na marcha atletica!hehehehe
Genial, adorei
Beijos
Muito verdadeiro. Sabe, tenho medo de ir parar no fundo de uma gaveta, ando tão demodê!
JM
Que texto bom, simples, direto e como disseram os colegas aí de cima, tb me emocionei. Que chegaremos todos , ou quase todos a velhice é lei natural da vida, que todos sabemos e esperamos, mas saber que vem junto o olhar de invalidez,inutilidade, de velho e ultrapassado só com muita maturidade, como do velho relógio, para caducar-se por opção. è mesmo a metáfora da vida de todos! Gostei!!!!!!!!!!!
Bjs
Beijs
O horror. O horror. O horror.
Esta frase foi celebrada no filme Apocalpse Now, em condições diferentes, porem somente na superfície, nas profundezas do fator humano, o que se passa de desumano, tanto no filme, quanto no seu texto, é a mesma coisa.
E, tanto na sétima arte, quanto na vida real e atual, destruir o velho, ou o novo, que pode se tornar, em momentos nem sempre incomuns, tão velho quanto aquele; seu texto ilustra o lado escatológico da civilização tão bem refletido em O Mito do Eterno Retorno, de Mircea Eliade.
Grande Abraço
Obrigada, José Expedito e Ana Maria! ( e a todos os amigos) que estão sempre construindo um pouquinho mais esse espaço. ;-) Apareçam sempre!
Deborah, a cada dia me convenço de que vc não existe!!!!;-) Uma espécie de Lost,ou MIB vindo do futuro ou do passado.Vc é gold!GOLD GOLD GOLD bjs JM
Are baba!
Que iluminado,gostei muito. Uma forma de como o feio pode ser tão tocante.
Parabénnns
Migona, lindo!!! Como sempre,belos! e sutil.
Bjos
Lembrando, Deborah
aguardo sua visita lá
Grande sacada, Raquel
deve ter uma vista magnânima
de horizontes e transeuntes
das distâncias imensuráveis
e das infinitas repartições
Apareça, também
O pessoal adorou a reunião de ontem!
Vms as próximas. e continuemos com nossos corações na essencia, ok?
bjs Mané e
Simplismente bárbaro!
Lindo!
Sensível!
raro!
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